Recentemente fui questionado sobre a construção do Espaço Sagrado dentro da Tradição Druídica Waloniana e após uma breve explicação minha interlocutora concluiu que se tratava de uma versão céltica do Círculo Mágico usado na Wicca – ou que o segundo seria uma versão moderna do primeiro. Ela não poderia ter chegado a uma ideia tão deturpada, explicarei hoje o motivo. O Círculo Wiccano é tão diferente do nosso Fidnemed (o nome para nosso Espaço Sagrado) quanto a água do rio é do mar, ainda que ambas sejam água. Cabe ressaltar que uma prática esta certa e a outra esta errada mas somente que são diferente, não sendo esse material um ataque ao formato wiccano de perceber e interagir com o mundo e suas forças.

Recorri alguns amigos e amigas, livros de Bruxaria e Wicca que eu tenho em minha própria biblioteca e material em PDF disponível na web de forma gratuita para poder ter um entendimento mais estruturado daquilo que chamam de Círculo e qual seu propósito central, mostrarei abaixo o passo a passo que encontrei na maioria dos materiais e manterei o elementos mais populares:

  • Purificação do local e participantes
  • Consagração do local com incenso, vassoura ou outro elemento
  • Invocação – ou evocação dependendo do livro – dos quadrantes
  • Invocação dos elementais ou guardiões dos quatro elementos
  • Invocação dos quatro elementos
  • Traçar o Círculo com algum instrumento ou o próprio dedo – desenhá-lo de fato me parece opcional para a maioria dos casos
  • Invocar o casal divino, Deusa e Deus
  • Altar no centro – com algumas variações
  • Desfazer o Círculo

Agora vamos avaliar nosso padrão de construção do Fidnemed:

  • Purificação dos participantes
  • Oferenda ao Guardião do Local
  • Chamamento às Três Famílias – evocação
  • Oferenda às Três Famílias
  • Chamamento aos Três Reinos – evocação
  • Despertar das Direções da Irlanda – cinco
  • Construção da Bilios, a Árvore Sagrada – centro
  • Agradecimentos finais

A ordem dos fatores pode alterar de grupo pra grupo mas de um modo geral esses elementos estão presentes com maior ou menor escala de “importância”. Uma pessoa leiga em uma ou outra prática poderá apontar semelhanças óbvias, mas em se tratando de religiosidade nem sempre é seguro se agarrar ao óbvio, afinal, trabalhamos no campo do subjetivo e simbólico. Chamar um Círculo de Fidnemed ou o contrário é tão arriscado quanto amador, tendo em vista seus objetivos principais.

O pai da Wicca, Gerald Gardner nos diz em seu “A Bruxaria Hoje” que o Círculo serve, antes de mais nada para concentrar uma certa quantidade de energia que será usada em um propósito para o qual o rito esta sendo feito, veja:

“O Círculo das Bruxas, por outro lado, é para manter o poder que elas acreditam fazer crescer de seus próprios corpos e para evitar que ele seja dissipado antes que elas possam moldá-lo à sua vontade. Elas podem pisar fora ou dentro se o desejarem, mas isso envolve alguma perda de poder, de forma que elas evitam fazê-lo tanto quanto possível”¹

Janet e Stewart Farrar dizem que “a principal função de um Círculo de coven é ‘preservar e manter o poder que iremos gerar dentro de ti”² quando falam sobre o trabalho mágico em covens e Raven Grimassi aponta que “uma vez estabelecido, o círculo serve para conter as energias mágicas e metafísicas criadas dentro de sua esfera, para que essas energias se condensem o bastante de modo a atingir o resultado desejado”³, aqui apontando novamente a idéia do ritual wiccano como tendo um propósito previamente estabelecido e pelo qual todos dentro do Espaço Sagrado devem trabalhar.

Avaliando esses apontamentos já criamos um abismo entre um espaço e outro quando percebemos que um rito é pensado para necessariamente atingir um objetivo o outro – druidismo – serve basicamente para reviver a estrutura do Cosmo cumprindo nosso papel na construção da Ordem sobre o Caos, onde revivemos um tempo primordial, uma ruptura no tempo e espaço, como podemos ver na citação presente no Celtic Heritage  de Alwyn e Brinley Ress que fala que “todos nós sabemos da importância das colinas de Tara e Uisneach na Irlanda, o que muitos podem não saber é que para propósito ritual o centro de qualquer localidade se torna essa montanha sagrada, mesmo que seja a lareira de casa” e que “tal qual Tara é um monte, e pode ser simbolizado por qualquer monte escolhido com esse propósito” isso mostra a sagracidade de todo lugar e que o foco na ordenação ritual é suficiente para que não necessite mais proteção, ritual é isso: recriar o cosmo”4

Percebi também uma função secundária de proteção de forças hostis e manutenção da energia interna do Círculo wiccano, característica completamente fora do escopo de crenças minimamente célticas, onde não há do que se proteger porque estamos imersos em um espaço já habitado por forças e seres que são daquele local e para os quais devemos manter respeito dentro de uma relação de hospitalidade. Não há o que possa nos atacar uma vez que estejamos ali com respeito. Não cremos em “energias ruins” ou forças que possam nos agredir, ainda mais quando estamos dentro de um ambiente ritualístico, não porque estejamos protegidos mas porque somos parte daquilo também. Podemos vislumbrar essa ideia no pensamento de Starhawk em seu “A Dança Cósmica das feiticeiras”:

“Quando organizamos um círculo, criamos uma forma energética, uma fronteira que limita e contém os movimentos das forças sutis. Em bruxaria, a função do círculo não é, essencialmente, a de manter afastadas as energias negativas, mas guardar o poder, a fim de que ele possa atingir a plenitude.”5

E podemos ver novamente a ideia do uso da energia concentrada dentro do Círculo para algum objetivo final que não é necessariamente alinhado com o objeto do rito, como Beltane por exemplo. Tenho a impressão que na Wicca, de um modo geral, os festivais – Sabás– servem antes de mais nada a propósitos do praticante, algo que será notado de forma inversa no caso do Druidismo, quando a preocupação é mais comunitária e menos individual, onde a manutenção da Ordem sobre o Caso, mantendo o Cosmo em movimento é a primeira, se não a única preocupação, agindo em ciclos de luz e sombra, calor e frio durante um ano.

Com isso podemos notar já a grande diferença entre um Espaço Sagrado e outro, nós queremos construir o que Mircea Eliade chama em “O Sagrado e o Profano” de “verdadeiro mundo”:

“De tudo o que acabamos de dizer resulta que o “verdadeiro mundo” se encontra sempre no “meio”, no “Centro”, pois é aí que há rotura de nível, comunicação entre as três zonas cósmicas. Trata-se sempre de um Cosmos perfeito, seja qual for sua extensão. Toda uma região (por exemplo, a Palestina), uma cidade (Jerusalém), um santuário (o templo de Jerusalém) representam indiferentemente uma imago mundi. Flávio José escreveu, a propósito do simbolismo do templo, que o pátio figurava o Mar (quer dizer, as regiões inferiores), o santuário representava a Terra, e o Santo dos Santos, o Céu (Ant. Jud., III, VII, 7). Verifica se pois que a imago mundi, assim como o “Centro”, se repete no interior do mundo habitado. “6

Ao chamarmos as direções da Irlanda que são cinco ( direita, esquerda, atrás, a frente e no centro) não se trata nada além de criar uma zona central, um ponto de partida onde todas as forças convergem e de onde partem, estabelecemos duas linhas retas e percebemos seu ponto de intersecção como a marcação do “umbigo” do mundo e isso pode ser percebido ainda em Celtic Heritage quando os autores citam que “ as quatro províncias da Irlanda e o centro constituem o estado, o cosmo ordenado”7.

Ao contrário da Wicca nao estamos chamando os elementos e elementais, seus guardiões, sequer cremos nisso, qualquer pessoa minimamente instruída na história céltica sabe disso, estamos sim construindo um espaço para reviver a “construção do mundo”, recriando as ações do Cosmo de forma comunitária. Percebemos isso na ação de consagrar o espaço e os objetos, para nós essa ação é completamente desnecessária porque dentro daquilo que cremos, assim como nossos ancestrais, não precisamos tornar sagrado aquilo que já é. Novamente Eliade nos ilumina com a seguinte passagem do mesmo livro supracitado:

“Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo: o espaço apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. […] Há, portanto, um espaço sagrado, e por conseqüência “forte”, significativo, e há outros espaços não sagrados, e por conseqüência sem estrutura nem consistência, em suma, amorfos. Mais ainda: para o homem religioso essa não-homogeneidade espacial traduz-se pela experiência de uma oposição entre o espaço sagrado – o único que é real, que existe realmente – e todo o resto, a extensão informe, que o cerca.”8

Criamos nosso Fidnemed para estabelecer este local e tempo reais, onde as coisas são perfeitas e fazemos isso pelo simples fato de devermos e podermos, não para ficarmos mais bonitos, mais saudáveis ou mais ricos, não há um propósito além de simplesmente ser.

“É preciso dizer, desde já, que a experiência religiosa da não homogeneidade do espaço constitui uma experiência primordial, que corresponde a uma “fundação do mundo”. Não se trata de uma especulação teórica, mas de uma experiência religiosa primária, que precede toda a reflexão sobre o mundo. É a rotura operada no espaço que permite a constituição do mundo, porque é ela que descobre o “ponto fixo”, o eixo central de toda a orientação futura. Quando o sagrado se manifesta por uma hierofania qualquer, não só há rotura na homogeneidade do espaço, como também revelação de uma realidade absoluta, que se opõe à não realidade da imensa extensão envolvente. A manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo. Na extensão homogênea e infinita onde não é possível nenhum ponto de referência, e onde, portanto, nenhuma orientação pode efetuar-se, a hierofania revela um “ponto fixo” absoluto, um “Centro”.9

Vemos então que os motivos reais de certos elementos aparecerem está além de simplesmente serem parecidos com os da Wicca ou de fazerem um simulacro céltico da religião de Gardner, eles possuem objetivos e estruturas bastante distintos e são pensados para finalidades completamente diferentes, onde ha um Fidnemed não há um Círculo e vice e versa. Misturar ambas ideias é desrespeitoso com ambas religiões porque elas são muito diferentes e seguem padrões díspares.

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Bibliografia

  1. GARDNER, Gerald Brusseau, “A Bruxaria Hoje”, editora Madras, São Paulo, SP,  2003
  2. FARRAR, Janet e Stewart, “A Bíblia das Bruxas”, editora Alfabeto, são Paulo, SP,  2016
  3. GRIMASSI, Raven, “Os Mistérios Wiccanos”, editora Gaia, São Paulo, SP, 2002
  4. RESS, Alwyn e Brinley, Celtic Heritage, 1961
  5. STARHAWK, “A Dança Cósmica das Feiticeiras, editora Nova Era, São Paulo, SP, 1993
  6. ELIADE, Mircea, “ O Sagrado e o Profano”, editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 1992
  7. RESS, Alwyn e Brinley, Celtic Heritage, 1961
  8. ELIADE, Mircea, “ O Sagrado e o Profano”, editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 1992
  9. ELIADE, Mircea, “ O Sagrado e o Profano”, editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 1992

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Sacerdote Nathair Dorchadas
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Sacerdote Chefe na Ordem Walonom.

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