Texto escrito em 2015 e repostado em 2016. Havia perdido ele até que um grupo de umbanda do Rio de Janeiro me marcou na publicação onde rolava meu texto. Aqui vai ele novamente com alguns elementos novos.

———————————————————

Depois de bastante tempo sem postar por pura falta de inspiração eis que me veio um assunto, a mistura de religiões de matriz africana com o druidismo.

Já ouço os racistas mal informados bradarem que isso é impossível e que iria poluir o que é nazismo  tradicional. Mas gente, que purismo é este ? É o purismo tipo caviar “nunca vi, nem comi eu só ouço falar” ?, servido nas melhores mesas das melhores tabernas de grife, porque aqui no baixo clero esta coisa não existe. Devo dizer que nem mesmo nos relatos históricos isso é apresentado ( to resumindo aquela aula sobre as interações sociais e comerciais entre os povos europeus).

Alguns elementos da religião:

– O nove é sagrado e esta associado ao Outro Mundo;
– O Outro Mundo é associado com uma figura feminina sendo tutora/matrona/parideira/guardiã;
– Os Deuses são manifestações e personificações de forças e formas naturais;
– Os Deuses e algumas vezes os heróis se transformam em animais;
– Há animais sagrados que estão associados à lugares e divindades;
– A terra é a soberania…

Linda esta religião céltica não? É, linda mesmo, pena que a lista acima foi escrita pensando nas estruturas básicas encontradas nos mitos Yorubás ( só para citar alguns, esta lista poderia ser beeeeeem maior). Se há tantas semelhanças, se ambas são religiosidades vivenciadas por comunidades em sua forma tribal, qual é o problema de um devoto céltico buscar suas raízes nos cultos afro? Absolutamente nenhum.

Mas aí vem o chato dos argumentos e sugere que por se tratarem de locais e sociedades diferentes, esta mistura seria perigosa. Em teoria é verdade, mas vamos sair da zona de conforto e nos arriscar além da cerca que nos prende a este pasto?

Há no mundo inteiro praticantes neste momento mantendo em seus altares pessoais divindades gregas e romanas, indianas e até norte americanas, fazendo oferendas para ancestrais cuja descendência é alemã, belga, chinesa e mais uma infinidade de coisas. Isso não é exceção, isso é quase uma regra para quem mantém um culto devocional caseiro e dedicado.

Mas eis que surge a Mariazinha com seu altar flanqueado por Osun (Oxum, me perdoem os tradicionais, são acentos demais), guardado por Songo (Xango) e mantido energeticamente por Oya (Iansã). Mariazinha é filha de negros, e sua ancestralidade esta cravada na África. Mariazinha é devota de Morrighan e das iyami osoronga, seus heróis são parte da resistência negra na época da escravidão e seu Cu Chullain é Zumbi. Ela não usa um caldeirão, era neles que suas ancestrais queimavam as mãos preparando angu, ela usa quartinhas.

– Oras, não são todos receptáculos miraculosos? Pensa ela.

Deita as oferendas para Dagda em gamelas porque para seus ancestrais que aqui pisaram, criam que era na gameleira branca que morava seu elo com os Deuses que deixaram para trás.

Por que choca tanto uma quartinha em um altar? Por que pode sua vizinha manter culto aos seus ancestrais alemães sem problemas? Por que o seu amiguinho pode fazer pilhas de desenhos devocionais para Deuses Gregos ?

O nome disso é preconceito caro leitor, que aliás foi incutido pelos cristãos que tentaram de toda forma demonizar a fé negra e que logra certo sucesso atualmente com os loucos cultos neo pentecostais desenfreados.

Ta na hora de parar de fazer a linha Celta de grife e sair deste falso moralismo e assumir que os próprios Celtas aceitavam e livremente praticavam interações religiosas, e não somos ninguém para impedir que o princípio básico da ancestralidade seja cerceado porque índio e negro não podem entrar nesta brincadeira. Tua Artio é tão valorosa quanto Osun, Oya merece tanto respeito quando Morrighan, porque são antes de nós, porque são forças com as quais interagimos. O homem reage de maneira semelhante à estímulos semelhantes.

Mariazinha, um recado do titio Nathair: Levanta esta cabaça, enche esta quartinha e borá bater cabeça. É uma honra ter diversidade por perto, porque quem gosta de exclusividade é o deus dos cristãos. Toca teu atabaque ancestral no Beltane, nossos Deuses não são excludentes e são para todos. Se tem Odin e Afrodite, ta na hora de fazer Legbara girar. Agô pro teu povo ancestral.

Compartilhe isso:

Perfil

Sacerdote Nathair Dorchadas
Sacerdote Nathair Dorchadas
Sacerdote Chefe na Ordem Walonom.

Sacerdote Nathair Dorchadas

Sacerdote Chefe na Ordem Walonom.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial