Não, eu não tenho Chakra !

…mas você pode ter.

Desde que comecei meus estudos sobre magia (que hoje se focam na Druidaria) tive contato com diversas fontes, indicadas por amigos ou presentes na bibliografia de livros que lia. Inicialmente eu acrescentava tudo que achava legal em minha própria rotina religiosa, indo desde meditações com animais xamânicos até movimentos dos Derviches para despertar a energia do meu corpo, no entanto, à medida que fui caminhando percebi que algumas dessas práticas não faziam sentido dentro do meu escopo original, a religião céltica historicamente fundamentada. Conforme analisei melhor minhas crenças pude notar disparidades em relação à algumas práticas avulsas importadas que eu mantinham, e os Chakras são parte disso.

Entenda porque eu sou uma pessoa sem Chakra, e pode ser que você também não tenha!

Tudo começa com o universalismo

O mundo é gigantesco, repleto de multiplicidade, de peças únicas e importantes. Cada um dos povos que já habitou ou habita esse local nos apresenta uma forma ímpar de observar e interagir com a vida, onde suas crenças, tabus e medos constroem uma sabedoria valiosa. Com o surgimento dos livros impressos pudemos ver um aumento significativo do acesso à informação antes represada em pequenos círculos poderosos, mais tarde na história vamos ter novamente uma revolução do saber através da tecnologia, a internet. Ela nos mostra que tudo no mundo está a um clique de distância e pode ser compartilhado com quantas pessoas for possível, por baixos preços e de maneira global, aí temos a propagação do conhecimento feito numa escala nunca antes vista.

Com isso, crenças mais populares acabam ganhando ares de universalidade, aplicadas à todos no mundo que possam se identificar com aquilo, algo bastante semelhante com um proselitismo passivo, algo como a cristianização “pacífica” realizada atualmente onde todos estão sob proteção de Deus ou seu filho Jesus, ou onde todos estamos sob o escrutínio da Bíblia. Quando elementos da cultura oriental foram aproximados do pensamento ocidental através da Teosofia, tornou-se popular buscar um mestre, um conselho ou uma aula de Yoga vindos do outro lado do mundo.

O comportamento universalizador é péssimo pois ele apaga aos poucos as características que distinguem os povos e suas culturas, tornando tudo meio padronizado, seja através de ações ou através de expectativas existenciais, as pessoas começam a perder sua identidade étnica (seja física ou simbólica). Sim, o homem reage de maneira semelhante à estímulos semelhantes, o ser humano olhou para o mesmo mundo e para a mesma vida e disso tirou conclusões, aplicou a si e ao seu povo, criou uma cultura no entorno daquilo, deu forma ao abstrato, deu-lhe um corpo. E como uma mãe que pode parir muitos filhos, a terra gerou pessoas nas mais diversas regiões, que puderam interagir com elementos mundiais (necessidades básicas, o clima básico -frio e quente-, os astros em alguns casos…) e também com elementos locais e específicos, a terra pariu muitos gêmeos e por mais parecidos que fossem em seu cabelo, olhos ou dentes, ainda assim são coisas completamente diferentes e irão passar pela vida deixando rastros diferentes. O universalismo é o padrasto (porque chegou depois e está querendo controlar as coisas) querendo dizer pra duas pessoas fisicamente parecidas que elas são a mesma, por fora e principalmente por dentro.

Eu não tenho Chakra

Esse conceito nasceu do pensamento de um povo que interagiu com elementos de sua vida e concluiu, usando sua própria cultura como base, que determinada característica no corpo humano era o que vieram a chamar de Chakra. Outros povos pelo mundo interagiram com as mesmas bases certamente, mas podem ter chegado a conclusões um pouco diferentes, porque usou agora sua própria base cultural como referência, isso se repetiu dezenas de vezes ao longo da história com inúmeros povos. Eles pariram gêmeos, uns idênticos e outros só parecidos, mas todos são completamente diferentes em sua essência, são indivíduos.

 

 

Mesmo gêmeos idênticos quando sob um olhar atento se mostram únicos

Chakra é um conceito religioso atrelado a um ideário espiritual dentro de um contexto cultural, isso torna ele único. Mesmo que outros povos tenham de fato percebido coisas semelhantes, criaram por sua vez, coisas diferentes. Se não há duas folhas de árvore iguais no mundo, não há de existir dois seres humanos iguais, muito menos resultados baseados na observação subjetiva. Há quem olhará para meu copo e perceberá chakras (eles estarão ali pelos olhos de quem vê), há quem perceberá três caldeirões (ainda estará ali através do olhos de quem vê) ou qualquer outra forma de ponto energético. Mas o que define subjetivamente a composição do meu corpo são as minhas crenças, e não, as coisas não vão surgir aqui somente porque você prefere assim!

Diferente dos órgão, que são objetivos, e estão presentes independente da minha percepção deles, aspectos energéticos são formatados à partir de experiências em que me coloco, assim como o caminho para o pós morte, que possui explicações diversas, em religiões diversas.

Eu não tenho Orixá de cabeça, eu não tenho Chakra e eu não tenho vida passada, eu pertenço ao mundo em que vivo, eu estou sob a custódia das minhas crenças e o paganismo precisa aprender que nem tudo é uma loja esotérica onde basta haver estantes suficientes para colocar as coisas, há caminhos que se bastam. Diferente do que pode parecer para alguns, creio profundamente nas percepções alheias às minhas, defendo o direito de as pessoas terem o corpo de crenças que achar melhor. Jesus existe, Chakra existe, Kundalini existe, Orixá existe, mas meu universo espiritual não se ocupa deles assim como meu corpo não se ocupa da neve dos pólos, ou da mesma forma que não sei como é ser hipertenso mesmo conhecendo o impacto dessa doença no corpo de quem a possui, existe um mundo além de mim e não acho que minha religião seja capaz sozinha de decodificar a existência, e creia-me, a sua também não.

Parem

 

 Simplesmente parem de etiquetar tudo com o lacre da universalização, cristãos não vão pro reino de Manannan, Judeus não celebram Beltane e eu não sou obrigado a achar tudo que for zen ou new age aplicável à minha realidade. O mundo é diversificado e não pode ser rotulado para caber na mesma sacolinha só para que soe mais adequado, temos que aprender de uma vez por todas que a multiplicidade humana é o que a faz tão especial, Chakra é lindo, Chakra é legal e certamente funciona, mas aqui em casa acreditamos numa conjuntura diferente e esta tudo bem, pra mim e pra você.

Não importa se a ciencia provou a existência de energia no corpo, disso ninguém tem dúvida, e no mais, isso aqui não é a feira de ciências da escola, não quero dados, quero sensações, percepções, eu quero poder perceber o subjetivo à minha volta com a lente céltica usada na minha Tradição, eu quero liberdade, a minha e a sua.

Meu corpo físico e energético são compostos por elementos pautados nas crenças em que estou inserido, o de vocês o mesmo, e essas verdades se aplicam unicamente à nós, deixe que o outro cuide de seu próprio corpo, salvo, claro, se forem da mesma crença, aí a intromissão ta liberada (até que a pessoa diga que deu).

 

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Sacerdote Nathair Dorchadas

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