Avalon, onde o sol não bate

Morgana Fala

“Houve tempo em que um viajante se tivesse disposição e conhecesse apenas uns poucos segredos, poderia levar sua barca para fora, penetrar no mar do verão e chegar não ao Glastonbury dos monges, mas à ilha sagrada de Avalon: isso porque, em tal época, os portões entre os mundos vagavam nas brumas, e estavam abertos, um após o outro, ao capricho e desejo dos viajantes. Esse é o grande segredo, conhecido de todos os homens cultos de nossa época: pelo pensamento criamos o mundo que nos cerca, novo a cada dia”.

Lembro até hoje do dia meio nublado que fazia quando ganhei de presente os quatro livros da série “As Brumas de Avalon”. Minha mãe, sem ter a menor ideia do que se tratava e do impacto que aquilo teria na minha vida, me dava o passaporte para uma nova visão. Ate hoje eu já li a coleção pelo menos 6 vezes, foram as que contei.

Minha sensação aos 10 anos era de uma epifania profunda, um retorno ao lar onde minhas dúvidas se tornavam certezas e minha alma encontrou asilo de imediato. Através das personagens Morgana e Viviane pude viver histórias e construir um modelo para aquilo que eu desejava para meu futuro e sem dúvida foi um molde para a construção da minha identidade sacerdotal: jamais abandonar ninguém que esteja do meu lado, defender meus ideais mesmo que estejam com uma espada diante de mim e acima de tudo estar aberto para o que os Deuses vão falar, porque eles falam. De um livro símbolo de um mundo que eu descobria, cheio de verdades, fui percebendo que era um romance muito bem escrito e que estava quase completamente despido daquilo que cria vestir, a espiritualidade céltica. Morgana me motivou a ser questionador e aprendi com ela que as vezes temos que dar passos para trás para podermos ir adiante, recuar é uma lição importante. Viviane me ensinou a ser firme quase ao ponto de ser duro e me mostrou a solidão em que vive uma liderança espiritual, e sim, até hoje curo feridas lembrando dela.

Eu carrego há 12 anos uma lua azul na minha testa em memória àquilo que me acordou. Você tem noção de que carrego no meu rosto o símbolo máximo dessa obra?

Quando soube, 2 anos atrás que a filha de Marion Zimmer Bradley, Moira Greyland ( um nome que, aliás me faz lembrar os nomes das personagens de Gravelight ou Witchlight) estava insinuando que sua mãe havia lhe causado dano com anos dos mais diversos abusos, meu mundo caiu. Questionei todo o universo que um dia me serviu de alavanca e minha tatuagem, meu símbolo de resistência mais óbvio. Mas a bomba veio com a publicação do livro “The Last Closet, the dark side os Avalon”( “O último armário, o lado escuro de Avalon” em tradução livre), onde ela relata momentos de horror causados por abusos de diversas naturezas, acusando desde sua mãe até nomes como Isaac Bonewits, líder fundador da ADF, a imensa congregação de praticantes de Druidismo (entre outras religiões indo-europeias).
Além dos relatos de abuso e as acusações diversas, temos críticas à gays, ao paganismo e até mesmo às personagens da mais famosa obra de MZB, passando por um editor polêmico acusado, entre outras coisas, de ser neonazista. Além dos debates a respeito da validade das acusações (todos os acusados estão mortos) ou da credibilidade do editor, temos uma filha relatando o horror de ter sido criada pela mulher que escreveu obras que mantiveram vivas muitas pessoas, trazendo incentivo, fantasia e motivos para seguir adiante.

Marion ser ou não um monstro não muda o impacto da sua obra sobre minha história, ainda que eu preferisse que ela fosse imaculada, mesmo sabendo que não há pessoas sem nódoas em suas histórias. Ainda que um monstro tenha me mostrado o caminho, ainda assim, foi o caminho certo. Afinal de contas, quantos são os autores masculinos abusadores, com suas obras maravilhosas que seguem suas vidas normalmente? O choque ao saber de uma mulher, mãe abusadora não esta parecendo maior do que o dispensado ao fundador Bonewits (quase não vi o nome dele ser mencionado) por ter abusado da mesma criança? Quanto de machismo tem sido usado pra dosar o espanto?

Que essa obra sirva para curar feridas da Moira, que sirva de exemplo para outras denúncias de abuso surjam e que a justiça, caso seja possível, seja aplicada. Meus mais profundos sentimentos à Moira e à sua trajetória retorcida pelo trauma de um ambiente caótico, meus sentimentos às coisas boas que essas pessoas deixaram de legado.

Sobre o paganismo ser perigoso: cristianismo, abarrotado de padres pedófilos, não deixou de ser uma opção espiritual válida para boa parte da população mundial. Portanto, não é um ou outro elemento díspar que resumirá o todo.

Marion seria expulsa do próprio universo que criou, seria sufocada por cada uma das heroínas, ela seria presa na grande árvore, dividindo espaço com Kevin, O Harpista. Marion não é o que criou, aquilo saiu da face mais clara de Avalon, uma ilha dentro dela, se existe um lado negro, ele não participou da construção de suas obras.

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Walonom

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